Sutil e Santa Cruz

Quando a abolição da escravatura oficializou-se no Brasil, em 1888, no Paraná uma particular história envolvendo a negritude vinha sendo escrita desde 1854, na Fazenda Santa Cruz, no distrito da Freguesia de Palmeira. Ali, em terras que somavam 6.530 hectares de extensão – número equivalente à metade da fazenda –, há 34 anos residiam escravos e libertos, os legítimos donos do lugar.Eles tornaram-se proprietários em dezembro de 1854, quando faleceu Maria Clara do Nascimento, rica fazendeira. Solteira, sem filhos, a mulher deixou como legado para seus escravos e libertos a vastidão dos terrenos, bem como àqueles que serviram a seu falecido irmão, o capitão Joaquim Gonçalves Guimarães.

Passados mais de 150 anos desde esses tempos, o que ainda existe como resquícios de uma história poucas vezes narrada são as comunidades do Sutil e de Santa Cruz. Localizadas entre os municípios de Palmeira e Ponta Grossa, distam uma da outra por menos de cinco quilômetros. Seus habitantes, trazendo no sangue e na pele a identificação da raça, como elos de uma corrente que os liga aos antepassados, que ali viviam desde os primórdios dos mil e oitocentos, visitam-se, estreitam laços, casam-se entre si. Sutil e Santa Cruz desafiam as variantes de uma história comum.

São indefinidas as origens da Fazenda Santa Cruz, havendo mesmo possibilidades de ter sido anteriormente uma sesmaria ou uma posse. Esses tipos de aquisições eram comuns nos idos dos 1700, e acredita-se que os Gonçalves Guimarães ali estivessem desde 1787. Pouco mais de meio século depois, Maria Clara do Nascimento iria firmar seu testamento, doando metade das terras da fazenda para os negros. Ela deixou ordens explícitas, particularmente na cláusula principal, dando conta de que os bens herdados seriam inalienáveis.

Assim, todos os beneficiados, escravos ou não, estavam impedidos de vender “ou alienar suas partes”. Percebe-se aqui, claramente, a preocupação da senhora quanto à preservação dessas famílias num país ainda escravocrata. Firmada essa exigência nos autos oficiais, criava ela mecanismos que asseguravam condições mínimas para a própria continuidade do grupo, afetando diretamente gerações de herdeiros que viriam no futuro.

A perpetuação como queria Maria Clara resultou numa quimera. Bastariam pouco mais de seis décadas para que aqueles campos do distrito da Freguesia da Palmeira, que em tempos findos tinham sido destinados à criação e invernagem de bovinos e muares, fossem sumariamente retirados de seus legítimos donos. Sem escritura ou qualquer tipo de documento comprobatório, os agricultores que ali viviam, sentiam-se literalmente com as mãos atadas para contestar.

Para compor essa nova realidade muito contribuiu o governo federal – do mesmo modo o governo estadual –  com políticas de incentivo ao povoamento dos sertões do Paraná, oferecendo terras a grandes companhias e a imigrantes que deixavam a Europa em busca de um novo Eldorado.Nessa orquestração de interesses parte do Sutil e Santa Cruz esvaneceu, enquanto no entorno desenhavam-se novos quadros. Porém, uma coisa é certa: a integridade de sua gente manteve-se intacta.

O orgulho de pertencer a um núcleo cujas raízes estão fincadas num passado singular, desde sempre se manteve como um traço de identidade e resistência, protegendo de certo modo sua cultura e sua memória.
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